Folclore
Lâmia: a rainha que virou bicho-papão
Do mito líbio às histórias contadas perto do berço

Na Grécia antiga, uma ama que precisasse fazer uma criança obedecer tinha à mão um pequeno elenco de assombrações: Mormo, Gelo, Empusa e, a mais famosa delas, Lâmia. O geógrafo Estrabão, escrevendo na virada para a nossa era, lembra com toda a naturalidade que era assim que se assustavam os pequenos. Mas Lâmia não nasceu bicho-papão. Começou como rainha trágica, virou metáfora nas mãos de filósofos e chegou aos contos populares gregos modernos como uma ogra enorme, comilona e desleixada. Mudou de forma em cada época. O que não mudou foi sua ligação com um dos medos mais antigos que existem: o de perder um filho.
Uma rainha na Líbia
A versão mais completa da origem está na Biblioteca Histórica de Diodoro Sículo, escrita no século I a.C. Ao narrar a marcha de um exército grego pelo deserto da Líbia, no fim do século IV a.C., Diodoro faz uma pausa diante de uma caverna enorme. Ali, segundo a tradição local, teria nascido Lâmia, uma rainha de beleza extraordinária.
Dizem que, quando todos os seus filhos morreram, ela, esmagada pela dor e com inveja da felicidade das outras mulheres, mandou arrancar os recém-nascidos dos braços das mães e matá-los na hora. Por isso, até os nossos dias, o nome dela assusta as crianças.
Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica (tradução nossa)
Diodoro acrescenta que a selvageria da alma acabou deformando o rosto da rainha, que ganhou feições de fera. Ele cita um verso de Eurípides sobre a “Lâmia de raça líbia”, prova de que a personagem já era conhecida do público de teatro em Atenas. E, como bom historiador racionalista, oferece uma explicação para outro detalhe famoso: Lâmia bebia tanto que não via o que acontecia à sua volta, e daí teria nascido a história de que ela guardava os olhos num odre.
Outros autores preferiam uma causa divina. Segundo o historiador Dúris de Samos e antigos comentadores das comédias de Aristófanes, Lâmia foi amante de Zeus. Hera, enciumada, destruiu os filhos dela, e a rainha, enlouquecida pela perda, passou a roubar e devorar os filhos das outras. Em algumas versões, Hera também lhe tirou o sono, e Zeus, por compaixão, deu a ela o poder de remover os olhos para descansar. Pausânias, por sua vez, fala de uma Lâmia filha de Posêidon que, com Zeus, foi mãe da Sibila da Líbia. A mesma figura podia ser vítima, assassina ou ancestral de profetisas, conforme quem contava.
Olhos num vaso, noivas perigosas
Com o tempo, a história virou matéria-prima para escritores. Plutarco, no ensaio Sobre a curiosidade, usa a lenda dos olhos removíveis como metáfora: em casa, Lâmia dorme cega, com os olhos guardados num vaso; quando sai, coloca-os de volta e enxerga tudo. Assim seria o curioso, cego para os próprios defeitos e atento aos dos outros. Horácio, na Arte Poética, cita Lâmia como exemplo de exagero que um poeta deve evitar: não se pode tirar vivo um menino da barriga de uma Lâmia que acabou de almoçar. A piada sugere que circulavam histórias de crianças engolidas inteiras e depois resgatadas.
O episódio mais inquietante está na Vida de Apolônio de Tiana, de Filóstrato, escrita no século III d.C. Em Corinto, um jovem estudante, Menipo, está prestes a casar com uma estrangeira linda e rica. O sábio Apolônio aparece no banquete e desmascara a noiva: ela é uma empusa, criatura que muitos chamam de lâmia. A baixela de ouro some como fumaça, e a criatura confessa que engordava o rapaz para devorá-lo, porque preferia corpos jovens. Séculos depois, essa cena chegou ao poeta inglês John Keats, que publicou em 1820 o poema Lamia, com a protagonista transformada em mulher-serpente. A imagem híbrida tem raízes antigas: Dião Crisóstomo, num de seus discursos, descreve um “mito líbio” sobre criaturas com corpo de mulher bonita e cauda de serpente que atraíam viajantes para devorá-los, e muitos leitores associam essas feras às lâmias.
A ogra dos contos e dos ditados
Na Grécia dos séculos XIX e XX, a rainha líbia já tinha virado uma espécie inteira: as lâmias, no plural. Os folcloristas que recolheram as tradições orais, como Nikolaos Politis em suas Paradóseis, de 1904, e o britânico John Cuthbert Lawson, num estudo de 1910 sobre o folclore grego moderno e a religião antiga, encontraram uma figura bem diferente da devoradora de bebês, embora aparentada com ela.
Nos paramýthia, os contos de fadas gregos, a lâmia costuma ser uma ogra gigantesca e voraz, que mora em lugares afastados, como cavernas, torres abandonadas e poços. Às vezes é mãe de dragões ou guarda uma fonte de que a aldeia depende, e o herói precisa vencê-la ou enganá-la. Nas ilhas e no litoral, falava-se ainda de uma Lâmia do mar, aparentada com as nereidas, que surgia nas praias e podia trazer tempestades ou afogar quem cruzasse seu caminho.
A figura também se instalou no vocabulário. Dizer que alguém “come como uma lâmia” era chamá-lo de glutão, e a bagunça de uma casa malcuidada podia ser comparada às “varreduras da Lâmia”, porque a ogra dos contos era também, na imaginação popular, a pior dona de casa possível: suja, desarrumada e sempre faminta. Essa mistura de pavor e comédia é típica das tradições populares, que conseguem rir daquilo que temem.
O nome viajou além da Grécia. Na Bulgária, a lamia do folclore é um monstro com jeito de dragão, associado ao granizo e às colheitas destruídas. No País Basco, as lamiak são seres das águas que penteiam os cabelos com pentes de ouro à beira dos rios. Os parentescos exatos entre essas figuras ainda são discutidos, mas o nome em comum aponta para uma longa circulação da palavra.
Medo de berço
Por que uma figura assim dura tanto? Por muito tempo, a morte de bebês foi uma experiência comum nas famílias, e as comunidades precisavam de palavras e gestos para lidar com ela. Lâmia, Gelo e outras criaturas noturnas davam forma a uma dor sem explicação e permitiam fazer alguma coisa: vigiar o berço, pendurar amuletos, rezar, seguir os costumes. Em muitas regiões gregas, os primeiros quarenta dias depois do parto eram vistos como um período delicado, em que mãe e bebê ficavam em casa até a bênção na igreja, protegidos contra o mau-olhado e os perigos da noite.
Tratar essas crenças com respeito não significa acreditar nelas, e sim reconhecer o que elas faziam: organizavam o medo, ensinavam cuidados e enchiam de histórias as noites longas. O mito antigo de Lâmia também guarda um padrão que os gregos repetiam em outras narrativas: o ciúme de Hera, que recai sobre as mulheres ao redor de Zeus, e não sobre ele, como acontece com a ninfa Eco em Narciso e Eco. E a imagem de um monstro que se alimenta de jovens tomados à força lembra o tributo de Atenas ao Minotauro.
Hoje, Lâmia aparece em romances, jogos e filmes de terror, quase sempre como sedutora com cauda de serpente. As versões antigas e as populares são mais estranhas e mais humanas: uma mãe enlouquecida, uma bêbada sem olhos, uma ogra que não varre a casa. Para conhecer outros monstros e assombrações, da Empusa ao Minotauro, visite o nosso Quem é quem.
Fontes antigas
- Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica 20.41.3–6
- Plutarco, Sobre a curiosidade (Moralia)
- Horácio, Arte Poética 340
- Filóstrato, Vida de Apolônio de Tiana 4.25
- N. G. Politis, Paradóseis (Tradições populares gregas) 1904
- J. C. Lawson, Modern Greek Folklore and Ancient Greek Religion 1910

