Mitos em Cores

Folclore

Lâmia: a rainha que virou bicho-papão

Do mito líbio às histórias contadas perto do berço

Publicado em 6 min de leitura

Ilustração pop em vermelho, azul e preto sobre fundo creme: a assombração Lâmia, metade mulher e metade serpente, espreita uma aldeia adormecida à noite.

Na Grécia antiga, uma ama que precisasse fazer uma criança obedecer tinha à mão um pequeno elenco de assombrações: Mormo, Gelo, Empusa e, a mais famosa delas, Lâmia. O geógrafo Estrabão, escrevendo na virada para a nossa era, lembra com toda a naturalidade que era assim que se assustavam os pequenos. Mas Lâmia não nasceu bicho-papão. Começou como rainha trágica, virou metáfora nas mãos de filósofos e chegou aos contos populares gregos modernos como uma ogra enorme, comilona e desleixada. Mudou de forma em cada época. O que não mudou foi sua ligação com um dos medos mais antigos que existem: o de perder um filho.

Uma rainha na Líbia

A versão mais completa da origem está na Biblioteca Histórica de Diodoro Sículo, escrita no século I a.C. Ao narrar a marcha de um exército grego pelo deserto da Líbia, no fim do século IV a.C., Diodoro faz uma pausa diante de uma caverna enorme. Ali, segundo a tradição local, teria nascido Lâmia, uma rainha de beleza extraordinária.

Dizem que, quando todos os seus filhos morreram, ela, esmagada pela dor e com inveja da felicidade das outras mulheres, mandou arrancar os recém-nascidos dos braços das mães e matá-los na hora. Por isso, até os nossos dias, o nome dela assusta as crianças.

Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica (tradução nossa)

Diodoro acrescenta que a selvageria da alma acabou deformando o rosto da rainha, que ganhou feições de fera. Ele cita um verso de Eurípides sobre a “Lâmia de raça líbia”, prova de que a personagem já era conhecida do público de teatro em Atenas. E, como bom historiador racionalista, oferece uma explicação para outro detalhe famoso: Lâmia bebia tanto que não via o que acontecia à sua volta, e daí teria nascido a história de que ela guardava os olhos num odre.

Outros autores preferiam uma causa divina. Segundo o historiador Dúris de Samos e antigos comentadores das comédias de Aristófanes, Lâmia foi amante de Zeus. Hera, enciumada, destruiu os filhos dela, e a rainha, enlouquecida pela perda, passou a roubar e devorar os filhos das outras. Em algumas versões, Hera também lhe tirou o sono, e Zeus, por compaixão, deu a ela o poder de remover os olhos para descansar. Pausânias, por sua vez, fala de uma Lâmia filha de Posêidon que, com Zeus, foi mãe da Sibila da Líbia. A mesma figura podia ser vítima, assassina ou ancestral de profetisas, conforme quem contava.

Olhos num vaso, noivas perigosas

Com o tempo, a história virou matéria-prima para escritores. Plutarco, no ensaio Sobre a curiosidade, usa a lenda dos olhos removíveis como metáfora: em casa, Lâmia dorme cega, com os olhos guardados num vaso; quando sai, coloca-os de volta e enxerga tudo. Assim seria o curioso, cego para os próprios defeitos e atento aos dos outros. Horácio, na Arte Poética, cita Lâmia como exemplo de exagero que um poeta deve evitar: não se pode tirar vivo um menino da barriga de uma Lâmia que acabou de almoçar. A piada sugere que circulavam histórias de crianças engolidas inteiras e depois resgatadas.

O episódio mais inquietante está na Vida de Apolônio de Tiana, de Filóstrato, escrita no século III d.C. Em Corinto, um jovem estudante, Menipo, está prestes a casar com uma estrangeira linda e rica. O sábio Apolônio aparece no banquete e desmascara a noiva: ela é uma empusa, criatura que muitos chamam de lâmia. A baixela de ouro some como fumaça, e a criatura confessa que engordava o rapaz para devorá-lo, porque preferia corpos jovens. Séculos depois, essa cena chegou ao poeta inglês John Keats, que publicou em 1820 o poema Lamia, com a protagonista transformada em mulher-serpente. A imagem híbrida tem raízes antigas: Dião Crisóstomo, num de seus discursos, descreve um “mito líbio” sobre criaturas com corpo de mulher bonita e cauda de serpente que atraíam viajantes para devorá-los, e muitos leitores associam essas feras às lâmias.

A ogra dos contos e dos ditados

Na Grécia dos séculos XIX e XX, a rainha líbia já tinha virado uma espécie inteira: as lâmias, no plural. Os folcloristas que recolheram as tradições orais, como Nikolaos Politis em suas Paradóseis, de 1904, e o britânico John Cuthbert Lawson, num estudo de 1910 sobre o folclore grego moderno e a religião antiga, encontraram uma figura bem diferente da devoradora de bebês, embora aparentada com ela.

Nos paramýthia, os contos de fadas gregos, a lâmia costuma ser uma ogra gigantesca e voraz, que mora em lugares afastados, como cavernas, torres abandonadas e poços. Às vezes é mãe de dragões ou guarda uma fonte de que a aldeia depende, e o herói precisa vencê-la ou enganá-la. Nas ilhas e no litoral, falava-se ainda de uma Lâmia do mar, aparentada com as nereidas, que surgia nas praias e podia trazer tempestades ou afogar quem cruzasse seu caminho.

A figura também se instalou no vocabulário. Dizer que alguém “come como uma lâmia” era chamá-lo de glutão, e a bagunça de uma casa malcuidada podia ser comparada às “varreduras da Lâmia”, porque a ogra dos contos era também, na imaginação popular, a pior dona de casa possível: suja, desarrumada e sempre faminta. Essa mistura de pavor e comédia é típica das tradições populares, que conseguem rir daquilo que temem.

O nome viajou além da Grécia. Na Bulgária, a lamia do folclore é um monstro com jeito de dragão, associado ao granizo e às colheitas destruídas. No País Basco, as lamiak são seres das águas que penteiam os cabelos com pentes de ouro à beira dos rios. Os parentescos exatos entre essas figuras ainda são discutidos, mas o nome em comum aponta para uma longa circulação da palavra.

Medo de berço

Por que uma figura assim dura tanto? Por muito tempo, a morte de bebês foi uma experiência comum nas famílias, e as comunidades precisavam de palavras e gestos para lidar com ela. Lâmia, Gelo e outras criaturas noturnas davam forma a uma dor sem explicação e permitiam fazer alguma coisa: vigiar o berço, pendurar amuletos, rezar, seguir os costumes. Em muitas regiões gregas, os primeiros quarenta dias depois do parto eram vistos como um período delicado, em que mãe e bebê ficavam em casa até a bênção na igreja, protegidos contra o mau-olhado e os perigos da noite.

Tratar essas crenças com respeito não significa acreditar nelas, e sim reconhecer o que elas faziam: organizavam o medo, ensinavam cuidados e enchiam de histórias as noites longas. O mito antigo de Lâmia também guarda um padrão que os gregos repetiam em outras narrativas: o ciúme de Hera, que recai sobre as mulheres ao redor de Zeus, e não sobre ele, como acontece com a ninfa Eco em Narciso e Eco. E a imagem de um monstro que se alimenta de jovens tomados à força lembra o tributo de Atenas ao Minotauro.

Hoje, Lâmia aparece em romances, jogos e filmes de terror, quase sempre como sedutora com cauda de serpente. As versões antigas e as populares são mais estranhas e mais humanas: uma mãe enlouquecida, uma bêbada sem olhos, uma ogra que não varre a casa. Para conhecer outros monstros e assombrações, da Empusa ao Minotauro, visite o nosso Quem é quem.

Fontes antigas

  1. Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica 20.41.3–6
  2. Plutarco, Sobre a curiosidade (Moralia)
  3. Horácio, Arte Poética 340
  4. Filóstrato, Vida de Apolônio de Tiana 4.25
  5. N. G. Politis, Paradóseis (Tradições populares gregas) 1904
  6. J. C. Lawson, Modern Greek Folklore and Ancient Greek Religion 1910

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