Mitos em Cores

Monstros

Minotauro: o monstro no centro do labirinto

Um touro, uma rainha, um arquiteto e um novelo de fio

Publicado em 5 min de leitura

Ilustração pop em vermelho, azul e preto sobre fundo creme: Teseu segue o fio de Ariadne pelos corredores do labirinto em direção ao Minotauro, com cabeça de touro.

No centro de um prédio feito para ninguém sair, vive uma criatura com corpo de homem e cabeça de touro. De tempos em tempos, um navio de vela negra chega de Atenas trazendo sete rapazes e sete moças, que entram nos corredores e nunca mais voltam. Até que um deles leva consigo um novelo de fio. A história do Minotauro é um quebra-cabeça de responsabilidades, e quase ninguém sai dela inocente: um rei que trapaceia um deus, uma rainha castigada, um arquiteto genial, uma princesa que trai o pai e um herói que esquece de trocar a vela.

Um touro que não foi sacrificado

O ponto de partida está em Creta. Segundo a Biblioteca atribuída a Apolodoro, Minos, filho de Zeus e Europa, disputava o trono da ilha e afirmou que os deuses estavam do lado dele. Para provar, pediu a Posêidon que fizesse sair um touro do mar, prometendo sacrificá-lo. O touro apareceu, belíssimo, e Minos ganhou o reino. Mas gostou tanto do animal que o mandou para os seus rebanhos e sacrificou outro no lugar.

Posêidon se vingou de forma cruel e indireta: fez Pasífae, esposa de Minos e filha do Sol, desejar o touro. Ela pediu ajuda a Dédalo, o artesão ateniense exilado em Creta, que construiu uma vaca de madeira oca, sobre rodas, coberta com o couro de uma vaca de verdade. Pasífae entrou nela, e da união nasceu Astério, apelidado de Minotauro, “o touro de Minos”. Apolodoro o descreve com rosto de touro e o resto do corpo humano.

O nome de batismo é um detalhe pouco lembrado. Astério, ou Astérion, quer dizer “estrelado”, e era também o nome do antigo rei de Creta que tinha se casado com Europa e criado os filhos dela. Pausânias também chama o monstro de Astérion. Por trás do apelido brutal, havia um nome de família real.

A casa que engana

Seguindo um oráculo, Minos trancou o filho da rainha no Labirinto, outra obra de Dédalo. Apolodoro o define como uma casa cujos caminhos emaranhados confundem a saída. Ovídio, nas Metamorfoses, compara os corredores ao rio Meandro, na Ásia Menor, que vai e volta sobre si mesmo até parecer correr para a própria nascente.

Dédalo encheu de desvios caminhos sem conta, e ele mesmo mal conseguiu voltar até a porta: tão enganosa era a casa.

Ovídio, Metamorfoses (tradução nossa)

O alimento do monstro vinha de Atenas. Androgeu, filho de Minos, tinha morrido na Ática, e o rei cretense declarou guerra à cidade. Para encerrar o conflito e a fome e a peste que castigavam os atenienses, um oráculo mandou que eles aceitassem as condições de Minos: enviar sete rapazes e sete moças, sem armas, para serem devorados no Labirinto. Plutarco, na Vida de Teseu, e Ovídio falam em um envio a cada nove anos, mas as fontes antigas não concordam em todos os detalhes do tributo.

Teseu, Ariadne e o novelo

Teseu, filho do rei ateniense Egeu, entrou na lista das vítimas. No caminho, segundo o poeta Baquílides, do século V a.C., houve uma cena a bordo: Minos assedia uma das moças atenienses, Teseu o enfrenta, e o rei atira um anel de ouro ao mar, desafiando o rapaz a provar que é filho de Posêidon. Teseu mergulha, visita o palácio submarino de Anfitrite e volta à tona com presentes da deusa, um manto de púrpura e uma coroa.

Em Creta, Ariadne, filha de Minos e Pasífae, apaixona-se pelo herói e oferece ajuda em troca de casamento. Segundo Apolodoro, quem deu a ideia foi o próprio Dédalo: um novelo de fio amarrado à porta, desenrolado na ida e seguido na volta. Teseu encontra o Minotauro no fundo do Labirinto e o mata a socos, conta Apolodoro; nos vasos gregos, ele costuma aparecer com espada ou clava.

A volta para casa é um desastre em duas partes. Teseu leva Ariadne, mas a deixa na ilha de Naxos. Os motivos variam: esquecimento, ordem divina ou o desejo de Dioniso, que a toma como esposa. A Odisseia guarda uma versão bem mais sombria, em que Ártemis mata Ariadne na ilha de Dia por denúncia de Dioniso. Depois, Teseu esquece o combinado com o pai: içar vela branca se voltasse vivo. Egeu vê a vela negra e se joga do alto da Acrópole, segundo Apolodoro e Pausânias; outra tradição diz que ele caiu no mar que hoje leva seu nome, o Egeu.

Pedras, machados e outras leituras

Já na Antiguidade houve quem tentasse explicar o monstro sem monstros. Plutarco registra a opinião do historiador ateniense Filócoro: segundo os cretenses, o Labirinto era uma prisão comum, e o “Minotauro” seria Tauro, um general de Minos cruel com os prisioneiros, que Teseu derrotou numa competição. É o mito transformado em notícia policial.

A arqueologia trouxe outra camada. A partir de 1900, o britânico Arthur Evans escavou o palácio de Cnossos, em Creta, um complexo de salas, corredores e pátios em vários níveis que parece mesmo feito para desorientar visitantes. Nas paredes, afrescos mostram jovens saltando sobre touros; entre os objetos e símbolos, aparece com frequência o machado de lâmina dupla. Plutarco diz que lábrys era a palavra lídia para “machado”, e muitos estudiosos ligaram labirinto a ela, embora essa etimologia continue em debate. Uma tabuleta em Linear B encontrada em Cnossos menciona uma “senhora do labirinto”, sinal de que a palavra é muito antiga na ilha.

Séculos depois, Cnossos cunhava moedas com o desenho do labirinto, às vezes quadrado, às vezes circular. Curiosamente, esse desenho clássico tem um caminho único, sem bifurcações: quem segue em frente chega ao centro. O labirinto das histórias, cheio de becos sem saída, e o símbolo das moedas não são exatamente a mesma coisa.

Minos, o rei que começou tudo ao guardar o touro, reaparece na Odisseia como juiz dos mortos, com cetro de ouro, no mesmo mundo subterrâneo onde Sísifo empurra sua pedra. E a criatura trancada, alimentada com jovens tomados de outra cidade, lembra outros devoradores de crianças do imaginário grego, como a Lâmia. Para ver Ariadne, Dédalo, Minos e companhia lado a lado, abra o nosso Quem é quem.

Fontes antigas

  1. Apolodoro, Biblioteca 3.1.3–4; 3.15.7–8; Epítome 1.7–11
  2. Ovídio, Metamorfoses 8.152–182
  3. Plutarco, Vida de Teseu 15–23
  4. Baquílides, Ditirambos 17
  5. Homero, Odisseia 11.321–325; 11.568–571

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