Monstros
Minotauro: o monstro no centro do labirinto
Um touro, uma rainha, um arquiteto e um novelo de fio

No centro de um prédio feito para ninguém sair, vive uma criatura com corpo de homem e cabeça de touro. De tempos em tempos, um navio de vela negra chega de Atenas trazendo sete rapazes e sete moças, que entram nos corredores e nunca mais voltam. Até que um deles leva consigo um novelo de fio. A história do Minotauro é um quebra-cabeça de responsabilidades, e quase ninguém sai dela inocente: um rei que trapaceia um deus, uma rainha castigada, um arquiteto genial, uma princesa que trai o pai e um herói que esquece de trocar a vela.
Um touro que não foi sacrificado
O ponto de partida está em Creta. Segundo a Biblioteca atribuída a Apolodoro, Minos, filho de Zeus e Europa, disputava o trono da ilha e afirmou que os deuses estavam do lado dele. Para provar, pediu a Posêidon que fizesse sair um touro do mar, prometendo sacrificá-lo. O touro apareceu, belíssimo, e Minos ganhou o reino. Mas gostou tanto do animal que o mandou para os seus rebanhos e sacrificou outro no lugar.
Posêidon se vingou de forma cruel e indireta: fez Pasífae, esposa de Minos e filha do Sol, desejar o touro. Ela pediu ajuda a Dédalo, o artesão ateniense exilado em Creta, que construiu uma vaca de madeira oca, sobre rodas, coberta com o couro de uma vaca de verdade. Pasífae entrou nela, e da união nasceu Astério, apelidado de Minotauro, “o touro de Minos”. Apolodoro o descreve com rosto de touro e o resto do corpo humano.
O nome de batismo é um detalhe pouco lembrado. Astério, ou Astérion, quer dizer “estrelado”, e era também o nome do antigo rei de Creta que tinha se casado com Europa e criado os filhos dela. Pausânias também chama o monstro de Astérion. Por trás do apelido brutal, havia um nome de família real.
A casa que engana
Seguindo um oráculo, Minos trancou o filho da rainha no Labirinto, outra obra de Dédalo. Apolodoro o define como uma casa cujos caminhos emaranhados confundem a saída. Ovídio, nas Metamorfoses, compara os corredores ao rio Meandro, na Ásia Menor, que vai e volta sobre si mesmo até parecer correr para a própria nascente.
Dédalo encheu de desvios caminhos sem conta, e ele mesmo mal conseguiu voltar até a porta: tão enganosa era a casa.
Ovídio, Metamorfoses (tradução nossa)
O alimento do monstro vinha de Atenas. Androgeu, filho de Minos, tinha morrido na Ática, e o rei cretense declarou guerra à cidade. Para encerrar o conflito e a fome e a peste que castigavam os atenienses, um oráculo mandou que eles aceitassem as condições de Minos: enviar sete rapazes e sete moças, sem armas, para serem devorados no Labirinto. Plutarco, na Vida de Teseu, e Ovídio falam em um envio a cada nove anos, mas as fontes antigas não concordam em todos os detalhes do tributo.
Teseu, Ariadne e o novelo
Teseu, filho do rei ateniense Egeu, entrou na lista das vítimas. No caminho, segundo o poeta Baquílides, do século V a.C., houve uma cena a bordo: Minos assedia uma das moças atenienses, Teseu o enfrenta, e o rei atira um anel de ouro ao mar, desafiando o rapaz a provar que é filho de Posêidon. Teseu mergulha, visita o palácio submarino de Anfitrite e volta à tona com presentes da deusa, um manto de púrpura e uma coroa.
Em Creta, Ariadne, filha de Minos e Pasífae, apaixona-se pelo herói e oferece ajuda em troca de casamento. Segundo Apolodoro, quem deu a ideia foi o próprio Dédalo: um novelo de fio amarrado à porta, desenrolado na ida e seguido na volta. Teseu encontra o Minotauro no fundo do Labirinto e o mata a socos, conta Apolodoro; nos vasos gregos, ele costuma aparecer com espada ou clava.
A volta para casa é um desastre em duas partes. Teseu leva Ariadne, mas a deixa na ilha de Naxos. Os motivos variam: esquecimento, ordem divina ou o desejo de Dioniso, que a toma como esposa. A Odisseia guarda uma versão bem mais sombria, em que Ártemis mata Ariadne na ilha de Dia por denúncia de Dioniso. Depois, Teseu esquece o combinado com o pai: içar vela branca se voltasse vivo. Egeu vê a vela negra e se joga do alto da Acrópole, segundo Apolodoro e Pausânias; outra tradição diz que ele caiu no mar que hoje leva seu nome, o Egeu.
Pedras, machados e outras leituras
Já na Antiguidade houve quem tentasse explicar o monstro sem monstros. Plutarco registra a opinião do historiador ateniense Filócoro: segundo os cretenses, o Labirinto era uma prisão comum, e o “Minotauro” seria Tauro, um general de Minos cruel com os prisioneiros, que Teseu derrotou numa competição. É o mito transformado em notícia policial.
A arqueologia trouxe outra camada. A partir de 1900, o britânico Arthur Evans escavou o palácio de Cnossos, em Creta, um complexo de salas, corredores e pátios em vários níveis que parece mesmo feito para desorientar visitantes. Nas paredes, afrescos mostram jovens saltando sobre touros; entre os objetos e símbolos, aparece com frequência o machado de lâmina dupla. Plutarco diz que lábrys era a palavra lídia para “machado”, e muitos estudiosos ligaram labirinto a ela, embora essa etimologia continue em debate. Uma tabuleta em Linear B encontrada em Cnossos menciona uma “senhora do labirinto”, sinal de que a palavra é muito antiga na ilha.
Séculos depois, Cnossos cunhava moedas com o desenho do labirinto, às vezes quadrado, às vezes circular. Curiosamente, esse desenho clássico tem um caminho único, sem bifurcações: quem segue em frente chega ao centro. O labirinto das histórias, cheio de becos sem saída, e o símbolo das moedas não são exatamente a mesma coisa.
Minos, o rei que começou tudo ao guardar o touro, reaparece na Odisseia como juiz dos mortos, com cetro de ouro, no mesmo mundo subterrâneo onde Sísifo empurra sua pedra. E a criatura trancada, alimentada com jovens tomados de outra cidade, lembra outros devoradores de crianças do imaginário grego, como a Lâmia. Para ver Ariadne, Dédalo, Minos e companhia lado a lado, abra o nosso Quem é quem.
Fontes antigas
- Apolodoro, Biblioteca 3.1.3–4; 3.15.7–8; Epítome 1.7–11
- Ovídio, Metamorfoses 8.152–182
- Plutarco, Vida de Teseu 15–23
- Baquílides, Ditirambos 17
- Homero, Odisseia 11.321–325; 11.568–571

