Mitos em Cores

Mortais

Aracne: a tecelã que desafiou Atena

Um duelo de tear, duas tapeçarias e a primeira aranha

Publicado em 5 min de leitura

Ilustração pop em vermelho, azul e preto sobre fundo creme: Aracne trabalha no tear uma tapeçaria deslumbrante enquanto Atena observa; no canto, uma teia de aranha.

Toda vez que uma aranha refaz a teia num canto da casa, ela repete, sem saber, o castigo de uma moça da Lídia. Pelo menos é o que conta Ovídio no começo do livro 6 das Metamorfoses. Aracne não era rainha, nem filha de deus, nem heroína de guerra. Era uma artesã de cidade pequena que tecia melhor do que qualquer pessoa e cometeu o erro de dizer isso em voz alta. O nome dela já entrega o final: em grego, aráchne quer dizer simplesmente “aranha”.

Talento de cidade pequena

Ovídio capricha na origem modesta. Aracne nasceu em Hipepa, uma cidadezinha da Lídia, região da atual Turquia famosa pelos tecidos e pelos tingimentos. O pai, Idmon de Cólofon, tingia lã com a púrpura de Foceia; a mãe, também de origem humilde, já tinha morrido. Mesmo assim, a fama da moça corria as cidades lídias, e as ninfas desciam das vinhas do monte Tmolo e das águas do rio Pactolo só para vê-la trabalhar.

O espetáculo não era só o produto final. Ovídio descreve cada etapa: Aracne enrolava a lã bruta em novelos, desfiava os flocos macios como nuvens, girava o fuso com o polegar, bordava com a agulha. Quem a via jurava que ela tinha aprendido com Palas Atena, a deusa dos trabalhos manuais. Ela negava, ofendida, e ia além: que a deusa viesse competir com ela, e, se perdesse, aceitaria qualquer castigo.

Para um leitor antigo, a provocação tinha peso. Atena era a padroeira da tecelagem. Em Atenas, a cada quatro anos, moças da cidade teciam um grande manto, o péplos, oferecido à deusa nas Panateneias, com cenas da batalha dos deuses contra os gigantes. Hesíodo conta que foi Atena quem ensinou Pandora, a primeira mulher, a trabalhar no tear. Negar que o talento vinha dela era negar a própria ordem das coisas.

O duelo de tapeçarias

Atena aparece primeiro disfarçada de velha, com cabelos brancos e bengala. Aconselha Aracne a buscar fama entre os mortais e a pedir perdão à deusa. A moça responde com desprezo: que a velha vá dar conselhos às noras e às filhas, se tiver. Então a deusa revela quem é. As ninfas e as mulheres da Lídia se curvam; Aracne fica vermelha por um instante, mas não recua. Começa a disputa.

As duas armam os teares lado a lado, e Ovídio descreve as obras como se fossem painéis de uma exposição. Atena tece a colina de Ares, em Atenas, com os doze deuses sentados em majestade e a disputa dela com Netuno pela cidade, vencida com o presente da oliveira. Nos quatro cantos, como avisos, ela põe mortais que desafiaram deuses e foram transformados: Ródope e Hemo, que viraram montanhas; uma rainha dos pigmeus, que virou grou; Antígona, filha de Laomedonte, que virou cegonha; e Cíniras, que chora abraçado aos degraus de um templo que eram suas filhas. A moldura é feita de ramos de oliveira. É uma tapeçaria de propaganda: ordem, hierarquia, castigo.

Aracne responde com um catálogo de abusos. Ela tece Europa enganada por Júpiter em forma de touro, Leda com o cisne, Dânae com a chuva de ouro e muitas outras mulheres seduzidas ou violentadas por deuses disfarçados. Netuno aparece como touro, carneiro, cavalo e golfinho; Apolo, como camponês e falcão; Baco, como um cacho de uvas; Saturno, como cavalo. A moldura traz flores entrelaçadas com hera. Cada cena é tão realista que o touro parece de verdade e o mar parece molhado.

O resultado é constrangedor para a deusa:

Nem Palas nem a própria Inveja poderiam achar defeito naquela obra. A loura guerreira sofreu com o sucesso da rival e rasgou o tecido bordado com os crimes dos deuses.

Ovídio, Metamorfoses (tradução nossa)

Pendurada para sempre

Furiosa, Atena bate três ou quatro vezes na cabeça de Aracne com a lançadeira de buxo. A moça não suporta a humilhação e se enforca. A deusa, num gesto que mistura pena e vingança, sustenta o corpo e declara: viva, sim, mas pendurada, e que o mesmo castigo valha para toda a sua descendência. Depois borrifa sobre ela o suco de uma erva de Hécate.

A metamorfose é descrita com precisão quase de desenho animado: os cabelos caem, o nariz e as orelhas somem, a cabeça encolhe, o corpo inteiro fica minúsculo. Os dedos finos viram patas presas aos lados, e o resto é barriga. Dali Aracne continua soltando o fio e tecendo, como antes.

Arrogância ou coragem?

O mito parece ter uma moral simples: não desafie os deuses. Muitos leitores pararam aí. Dante coloca Aracne entre os exemplos de soberba no Purgatório, gravada no chão, já meio aranha, sobre os farrapos da obra que a perdeu. Virgílio, nas Geórgicas, menciona de passagem a aranha “odiada por Minerva”, que pendura suas redes nas portas, sinal de que a ligação entre a deusa e o bicho já era conhecida dos romanos.

Mas Ovídio deixa uma pergunta incômoda no ar. Aracne não perde o duelo. A obra dela é perfeita, e Atena a castiga mesmo assim, talvez justamente por isso, talvez também pelo tema escolhido. A tapeçaria da mortal mostra os deuses como abusadores; a da deusa mostra mortais punidos. Quem tem o poder de rasgar o tecido do outro decide qual versão vira história oficial. Não por acaso, muitos leitores modernos viram em Aracne um espelho do próprio Ovídio, poeta que acabaria exilado pelo imperador Augusto.

A pintura também puxou esse fio. Em As fiandeiras, no Museu do Prado, em Madri, Velázquez transforma o mito numa oficina de tecelagem: em primeiro plano, mulheres trabalham na roca e no novelo; ao fundo, numa cena iluminada, Atena e Aracne aparecem diante de uma tapeçaria com o rapto de Europa. A arte e o castigo cabem no mesmo quadro.

O que fica é a imagem de uma artista que não aceitou dever o próprio talento a ninguém. Assim como em Narciso e Eco, o castigo de Ovídio não apaga quem sofre: torna eterno aquilo que definia a pessoa. Narciso vira flor que se curva sobre a água; Aracne vira tecelã de verdade, para sempre. Para conhecer outros mortais que cruzaram o caminho dos deuses, passe pelo nosso Quem é quem.

Fontes antigas

  1. Ovídio, Metamorfoses 6.1–145
  2. Virgílio, Geórgicas 4.246–247
  3. Plínio, o Velho, História Natural 7.196
  4. Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 63–64

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