Mitos em Cores

Mortais

Pandora: o presente que ninguém pediu

A primeira mulher, o jarro e a esperança que ficou

Publicado em 5 min de leitura

Ilustração pop em vermelho, azul e preto sobre fundo creme: Pandora ergue a tampa de um grande jarro de barro, de onde escapam males alados, enquanto a esperança fica no fundo.

Antes de Pandora, diz Hesíodo, os homens viviam longe do trabalho pesado, das doenças e da velhice que chega cedo. Não havia mulheres, nem casamento, nem a angústia da próxima colheita. Depois dela, a terra e o mar ficaram cheios de males que andam sozinhos, de dia e de noite, sem fazer barulho. A história da primeira mulher grega é uma das mais incômodas da mitologia e também uma das mais mal contadas. Para começar, não havia caixa nenhuma.

Um castigo com laço de presente

Para entender Pandora, é preciso dar um passo atrás, até Prometeu. O titã tinha enganado Zeus na divisão de um boi sacrificado e depois roubou o fogo, escondido num caule oco de funcho, para entregá-lo aos humanos. Zeus respondeu na mesma moeda: se os homens tinham ganhado um presente roubado, receberiam outro, dado de propósito, que abraçariam com alegria sem perceber o estrago.

Hesíodo conta o episódio duas vezes. Na Teogonia, a figura não tem nome: é uma moça modelada em terra por Hefesto, vestida e enfeitada por Atena, com uma coroa de ouro cheia de criaturas trabalhadas. O poeta a chama de kalòn kakón, “um belo mal”, e diz que dela descende a raça das mulheres. Em Os Trabalhos e os Dias, a cena ganha detalhes e um nome. Zeus manda Hefesto misturar terra e água e dar à criatura voz humana e um rosto parecido com o das deusas. Atena ensina a ela o trabalho no tear; Afrodite derrama graça e um desejo que dói; Hermes põe dentro dela uma “mente de cadela” e um jeito enganador. As Graças e a Persuasão a cobrem de colares de ouro, e as Horas a coroam com flores da primavera.

É Hermes quem dá o nome: Pandora, porque “todos” os deuses do Olimpo lhe deram um “presente”. A etimologia de Hesíodo é engenhosa, mas não é a única possível. Pandora também pode significar “a que dá tudo”, título que combina com a Terra, a grande doadora. Uma taça ateniense do século V a.C., hoje no Museu Britânico, mostra a mulher recém-criada sendo enfeitada por Atena e Hefesto com o nome Anesidora, “a que faz brotar os presentes”, outro epíteto da terra fértil. Talvez, por trás da vilã de Hesíodo, exista a lembrança de uma deusa mais antiga das colheitas.

O jarro, a tampa e o que voou

Zeus manda Hermes levar o presente a Epimeteu, irmão de Prometeu. O nome dele quer dizer algo como “o que pensa depois”, e ele faz jus ao nome: Prometeu tinha avisado para nunca aceitar presentes de Zeus, mas Epimeteu aceita e só entende o erro quando o mal já está dentro de casa.

Então vem o gesto famoso. Hesíodo não explica de onde saiu o recipiente nem por que Pandora o abre; diz apenas que ela tira a tampa e que os males se espalham.

Mas a mulher, erguendo com as mãos a grande tampa do jarro, espalhou tudo e tramou para os homens tristes cuidados. Só a Esperança ficou ali, em sua casa inquebrável, sob a borda do jarro, e não voou para fora.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias (tradução nossa)

O objeto é um píthos, um jarro de armazenagem enorme, às vezes da altura de uma pessoa, usado para guardar grãos, azeite e vinho. Era a despensa de uma casa camponesa, exatamente o tipo de casa para a qual Hesíodo escreve seu poema sobre trabalho, colheita e dívidas. A imagem tem lógica: o castigo de Zeus mora no mesmo lugar em que se guarda a comida do ano.

Logo depois, Hesíodo acrescenta um detalhe arrepiante. As doenças agora visitam as pessoas por conta própria, em silêncio, porque Zeus tirou delas a voz. O poeta fecha a cena com uma moral seca: não há como escapar dos planos de Zeus.

O enigma da esperança

O trecho mais discutido do mito são três versos sobre Elpís, palavra que costumamos traduzir como “esperança”, mas que em grego também significa simplesmente “expectativa”, boa ou ruim. Se o jarro estava cheio de males, o que a esperança fazia lá dentro? E ficar presa é uma notícia boa ou ruim para nós?

Os leitores se dividem há séculos. Para uns, a esperança é o único consolo que sobrou: os males andam soltos, mas ela continua guardada com os humanos, dentro da casa. Para outros, ela é mais um mal, uma ilusão que faz as pessoas aguentarem a vida dura em vez de enxergá-la como é. Há ainda quem leia ao contrário: trancada no jarro, a esperança ficou fora do nosso alcance, e é por isso que vivemos sem ela. O próprio Hesíodo, em outra passagem do poema, desconfia da “esperança vazia” do preguiçoso que espera colheita sem trabalhar.

Uma comparação ajuda. Na Ilíada, Aquiles conta que Zeus tem dois jarros no chão de seu palácio, um de bens e outro de males, e distribui a cada mortal uma mistura deles, ou só desgraças. A ideia de que o destino humano sai de recipientes guardados pelos deuses era familiar ao público grego. Hesíodo a transformou numa cena com personagem, gesto e culpada.

De vilã a símbolo

Os autores posteriores deram família à personagem. Na Biblioteca atribuída a Apolodoro, Pandora é a primeira mulher, esposa de Epimeteu e mãe de Pirra, que se casa com Deucalião e sobrevive ao dilúvio enviado por Zeus. Assim, a humanidade que repovoa a Terra descende dela. Pausânias conta que, na base da grande estátua de Atena no Partenon, estava esculpido o nascimento de Pandora. Em plena Acrópole, a criação da primeira mulher era assunto digno da deusa da cidade.

Esse detalhe pesa. A mesma Atena que ensina Pandora a tecer, em Hesíodo, é a deusa que vai castigar a tecelã Aracne quando ela se recusa a reconhecer de quem aprendeu. Nos dois casos, o trabalho das mãos é dom divino, e o dom vem com cobrança.

É impossível ler Pandora hoje sem notar a misoginia do texto. Hesíodo compara as mulheres a zangões que comem o mel produzido pelas abelhas operárias e apresenta o casamento como um mal inevitável. O mito justifica uma ordem social em que a mulher é vista como boca a alimentar, e não como trabalhadora. Leitoras e leitores modernos viraram a história do avesso: Pandora como curiosa, como inventora, como a primeira a querer saber o que havia lá dentro. Nada disso está em Hesíodo, que nunca fala em curiosidade. Mas essas releituras mostram por que a cena sobrevive: um gesto simples, uma tampa erguida, e o mundo muda para sempre.

No fim, o mito diz menos sobre uma mulher e mais sobre como os gregos explicavam a vida difícil: o trabalho, a doença, a fome, tudo começou com um presente bonito demais para ser recusado. Para conhecer os outros personagens dessa trama, de Prometeu a Epimeteu, passe pelo nosso Quem é quem.

Fontes antigas

  1. Hesíodo, Teogonia 570–612
  2. Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 42–105
  3. Homero, Ilíada 24.527–533
  4. Apolodoro, Biblioteca 1.7.2
  5. Pausânias, Descrição da Grécia 1.24.7

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