Mitos em Cores

Mundo dos mortos

Sísifo: o rei esperto e a pedra que sempre volta

Ele acorrentou a Morte. A pedra foi a conta

Publicado em 5 min de leitura

Ilustração pop em vermelho, azul e preto sobre fundo creme: Sísifo empurra uma pedra enorme por uma encosta íngreme no mundo dos mortos.

Quando Ulisses desce ao mundo dos mortos, na Odisseia, vê uma série de condenados famosos. Um deles está suado, coberto de poeira, empurrando com mãos e pés uma pedra gigantesca encosta acima. Sempre que está quase no alto, a pedra vira e rola de volta até a planície. É Sísifo, e a cena carrega uma ironia que o público antigo conhecia bem: segundo várias tradições, aquele homem era o verdadeiro pai de Ulisses.

O mais astuto dos mortais

Sísifo é filho de Éolo, o ancestral dos eólios, e Homero o chama de “o mais astuto dos homens”. A Ilíada o coloca em Éfira, cidade que os gregos depois identificaram com Corinto, e conta que ele foi pai de Glauco, que por sua vez foi pai de Belerofonte, o herói que montou o cavalo alado Pégaso. A Biblioteca atribuída a Apolodoro diz que Sísifo fundou Éfira e se casou com Mérope, uma das Plêiades, filhas do titã Atlas.

Ovídio, no poema Fastos, explica por que uma das sete estrelas das Plêiades brilha menos: é Mérope, envergonhada por ter sido a única das irmãs a se casar com um mortal. O casamento com Sísifo ficou gravado no céu como uma estrela tímida.

Como rei, Sísifo tinha fama de esperto, e um pouco de tudo o mais: negociante, inventor de truques, fundador de festas. Pausânias conta que ele criou os Jogos Ístmicos em honra do menino Melicertes, cujo corpo tinha chegado à praia no istmo de Corinto. Numa história contada pelo mitógrafo Higino, o ladrão Autólico roubava o gado de Sísifo e disfarçava os animais mudando sua aparência. Sísifo marcou os cascos do rebanho e assim reconheceu as próprias vacas no meio das do vizinho. Para completar, teria se deitado com Anticleia, filha de Autólico, pouco antes do casamento dela com Laertes. Sófocles e Eurípides aproveitam o boato e chamam Ulisses de “filho de Sísifo”, um insulto que juntava trapaça e bastardia.

Delator dos deuses

O motivo do castigo varia conforme a fonte, e isso é parte da graça. Para Apolodoro, o crime de Sísifo foi falar demais. Zeus raptou Egina, filha do deus-rio Asopo, e Sísifo, que sabia de tudo, contou ao pai desesperado quem era o sequestrador. Pausânias acrescenta o preço da informação: em troca, Asopo fez brotar uma fonte no alto da Acrocorinto, a cidadela de Corinto. Um rei que troca um segredo divino por água para a cidade: difícil imaginar uma figura mais prática.

Zeus, claro, não esqueceu. E aqui entram as histórias mais divertidas, preservadas em fragmentos de poetas e mitógrafos. Segundo Ferécides de Atenas, autor do século V a.C. citado por comentadores antigos de Homero, Zeus mandou Tânatos, a Morte, buscar Sísifo. O rei conseguiu acorrentar a Morte, e durante um tempo ninguém morreu na Terra. Foi preciso que Ares, o deus da guerra, libertasse Tânatos e entregasse Sísifo a ele.

Mas Sísifo tinha um plano B. Antes de morrer, pediu à mulher que não fizesse os ritos fúnebres nem as oferendas de costume. No mundo dos mortos, reclamou do descaso da esposa e convenceu os senhores do Hades a deixá-lo voltar para castigá-la. Já de volta à luz, simplesmente não retornou; em algumas versões, só desceu de novo quando morreu de velhice. O poeta Teógnis lembra Sísifo, filho de Éolo, como o homem que subiu do Hades depois de persuadir Perséfone com palavras astutas. E o poeta Alceu fala de um Sísifo que se julgava mais esperto que a Morte e, mesmo assim, por obra do destino, atravessou duas vezes o Aqueronte.

A pedra que não para

No fim, Sísifo voltou para baixo, e dessa vez com um trabalho sob medida. A cena canônica está na Odisseia:

E vi Sísifo, sofrendo dores terríveis, empurrando com as duas mãos uma pedra enorme. Fincando mãos e pés, ele a levava morro acima; mas, quando ia passar do topo, um peso a fazia virar, e a pedra sem-vergonha rolava de volta para a planície.

Homero, Odisseia (tradução nossa)

Homero não explica o crime, só mostra a pena. E a pena tem uma lógica cruel: o homem que vivia de encontrar atalhos, de passar a perna nos deuses e na própria Morte, recebe a única tarefa que nenhuma esperteza resolve. Não há truque contra o peso da pedra. Na mesma galeria de condenados, Homero põe Tântalo, eternamente com fome e sede diante de frutas e de água que fogem, e Tício, devorado por abutres. Mais tarde, os poetas acrescentaram Ixíon, preso a uma roda.

Sísifo também tem seu momento de pausa. Nas Metamorfoses, quando Orfeu desce ao Hades para buscar Eurídice e canta diante dos deuses dos mortos, o mundo subterrâneo inteiro para de trabalhar: Tântalo esquece a água que foge, a roda de Ixíon trava, e Sísifo se senta sobre a própria pedra para ouvir. É uma das imagens mais bonitas de todo o mito.

Imaginar Sísifo

O mito foi relido sem parar. O poeta romano Lucrécio, que não acreditava em castigos depois da morte, dizia que o Sísifo verdadeiro está entre nós: é o político que vive pedindo ao povo cargos e honras, sempre perde e volta para casa amargurado, só para recomeçar a campanha. A pedra, nessa leitura, é a ambição que nunca se satisfaz.

No século XX, Albert Camus fez de Sísifo o herói do absurdo. Em O mito de Sísifo, de 1942, ele se concentra no momento em que o condenado desce o morro atrás da pedra, consciente de tudo, e termina o ensaio pedindo que o imaginemos feliz. A tarefa não tem sentido, mas Sísifo a enfrenta de olhos abertos, e isso já é uma forma de vitória.

Em português, “trabalho de Sísifo” virou expressão para qualquer esforço que precisa ser refeito sem fim: arrumar a casa, responder e-mails, encher a geladeira. O mito sobrevive porque todo mundo conhece uma pedra assim. Como Prometeu na história de Pandora, Sísifo tentou ser mais esperto que Zeus, e a conta veio em forma de rotina. E quem distribui sentenças nesse mundo subterrâneo, segundo a própria Odisseia, é Minos, o rei de Creta da história do Minotauro. Para ver Mérope, Egina, Ulisses e os outros personagens dessa trama, passe pelo nosso Quem é quem.

Fontes antigas

  1. Homero, Odisseia 11.593–600
  2. Homero, Ilíada 6.152–155
  3. Apolodoro, Biblioteca 1.9.3
  4. Pausânias, Descrição da Grécia 2.1.3; 2.5.1
  5. Teógnis, Elegias 702–712
  6. Lucrécio, Sobre a Natureza das Coisas 3.995–1002

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