Mundo dos mortos
Sísifo: o rei esperto e a pedra que sempre volta
Ele acorrentou a Morte. A pedra foi a conta

Quando Ulisses desce ao mundo dos mortos, na Odisseia, vê uma série de condenados famosos. Um deles está suado, coberto de poeira, empurrando com mãos e pés uma pedra gigantesca encosta acima. Sempre que está quase no alto, a pedra vira e rola de volta até a planície. É Sísifo, e a cena carrega uma ironia que o público antigo conhecia bem: segundo várias tradições, aquele homem era o verdadeiro pai de Ulisses.
O mais astuto dos mortais
Sísifo é filho de Éolo, o ancestral dos eólios, e Homero o chama de “o mais astuto dos homens”. A Ilíada o coloca em Éfira, cidade que os gregos depois identificaram com Corinto, e conta que ele foi pai de Glauco, que por sua vez foi pai de Belerofonte, o herói que montou o cavalo alado Pégaso. A Biblioteca atribuída a Apolodoro diz que Sísifo fundou Éfira e se casou com Mérope, uma das Plêiades, filhas do titã Atlas.
Ovídio, no poema Fastos, explica por que uma das sete estrelas das Plêiades brilha menos: é Mérope, envergonhada por ter sido a única das irmãs a se casar com um mortal. O casamento com Sísifo ficou gravado no céu como uma estrela tímida.
Como rei, Sísifo tinha fama de esperto, e um pouco de tudo o mais: negociante, inventor de truques, fundador de festas. Pausânias conta que ele criou os Jogos Ístmicos em honra do menino Melicertes, cujo corpo tinha chegado à praia no istmo de Corinto. Numa história contada pelo mitógrafo Higino, o ladrão Autólico roubava o gado de Sísifo e disfarçava os animais mudando sua aparência. Sísifo marcou os cascos do rebanho e assim reconheceu as próprias vacas no meio das do vizinho. Para completar, teria se deitado com Anticleia, filha de Autólico, pouco antes do casamento dela com Laertes. Sófocles e Eurípides aproveitam o boato e chamam Ulisses de “filho de Sísifo”, um insulto que juntava trapaça e bastardia.
Delator dos deuses
O motivo do castigo varia conforme a fonte, e isso é parte da graça. Para Apolodoro, o crime de Sísifo foi falar demais. Zeus raptou Egina, filha do deus-rio Asopo, e Sísifo, que sabia de tudo, contou ao pai desesperado quem era o sequestrador. Pausânias acrescenta o preço da informação: em troca, Asopo fez brotar uma fonte no alto da Acrocorinto, a cidadela de Corinto. Um rei que troca um segredo divino por água para a cidade: difícil imaginar uma figura mais prática.
Zeus, claro, não esqueceu. E aqui entram as histórias mais divertidas, preservadas em fragmentos de poetas e mitógrafos. Segundo Ferécides de Atenas, autor do século V a.C. citado por comentadores antigos de Homero, Zeus mandou Tânatos, a Morte, buscar Sísifo. O rei conseguiu acorrentar a Morte, e durante um tempo ninguém morreu na Terra. Foi preciso que Ares, o deus da guerra, libertasse Tânatos e entregasse Sísifo a ele.
Mas Sísifo tinha um plano B. Antes de morrer, pediu à mulher que não fizesse os ritos fúnebres nem as oferendas de costume. No mundo dos mortos, reclamou do descaso da esposa e convenceu os senhores do Hades a deixá-lo voltar para castigá-la. Já de volta à luz, simplesmente não retornou; em algumas versões, só desceu de novo quando morreu de velhice. O poeta Teógnis lembra Sísifo, filho de Éolo, como o homem que subiu do Hades depois de persuadir Perséfone com palavras astutas. E o poeta Alceu fala de um Sísifo que se julgava mais esperto que a Morte e, mesmo assim, por obra do destino, atravessou duas vezes o Aqueronte.
A pedra que não para
No fim, Sísifo voltou para baixo, e dessa vez com um trabalho sob medida. A cena canônica está na Odisseia:
E vi Sísifo, sofrendo dores terríveis, empurrando com as duas mãos uma pedra enorme. Fincando mãos e pés, ele a levava morro acima; mas, quando ia passar do topo, um peso a fazia virar, e a pedra sem-vergonha rolava de volta para a planície.
Homero, Odisseia (tradução nossa)
Homero não explica o crime, só mostra a pena. E a pena tem uma lógica cruel: o homem que vivia de encontrar atalhos, de passar a perna nos deuses e na própria Morte, recebe a única tarefa que nenhuma esperteza resolve. Não há truque contra o peso da pedra. Na mesma galeria de condenados, Homero põe Tântalo, eternamente com fome e sede diante de frutas e de água que fogem, e Tício, devorado por abutres. Mais tarde, os poetas acrescentaram Ixíon, preso a uma roda.
Sísifo também tem seu momento de pausa. Nas Metamorfoses, quando Orfeu desce ao Hades para buscar Eurídice e canta diante dos deuses dos mortos, o mundo subterrâneo inteiro para de trabalhar: Tântalo esquece a água que foge, a roda de Ixíon trava, e Sísifo se senta sobre a própria pedra para ouvir. É uma das imagens mais bonitas de todo o mito.
Imaginar Sísifo
O mito foi relido sem parar. O poeta romano Lucrécio, que não acreditava em castigos depois da morte, dizia que o Sísifo verdadeiro está entre nós: é o político que vive pedindo ao povo cargos e honras, sempre perde e volta para casa amargurado, só para recomeçar a campanha. A pedra, nessa leitura, é a ambição que nunca se satisfaz.
No século XX, Albert Camus fez de Sísifo o herói do absurdo. Em O mito de Sísifo, de 1942, ele se concentra no momento em que o condenado desce o morro atrás da pedra, consciente de tudo, e termina o ensaio pedindo que o imaginemos feliz. A tarefa não tem sentido, mas Sísifo a enfrenta de olhos abertos, e isso já é uma forma de vitória.
Em português, “trabalho de Sísifo” virou expressão para qualquer esforço que precisa ser refeito sem fim: arrumar a casa, responder e-mails, encher a geladeira. O mito sobrevive porque todo mundo conhece uma pedra assim. Como Prometeu na história de Pandora, Sísifo tentou ser mais esperto que Zeus, e a conta veio em forma de rotina. E quem distribui sentenças nesse mundo subterrâneo, segundo a própria Odisseia, é Minos, o rei de Creta da história do Minotauro. Para ver Mérope, Egina, Ulisses e os outros personagens dessa trama, passe pelo nosso Quem é quem.
Fontes antigas
- Homero, Odisseia 11.593–600
- Homero, Ilíada 6.152–155
- Apolodoro, Biblioteca 1.9.3
- Pausânias, Descrição da Grécia 2.1.3; 2.5.1
- Teógnis, Elegias 702–712
- Lucrécio, Sobre a Natureza das Coisas 3.995–1002

